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Versão pop para Chico Buarque

Publicação 08/11/2023 08:52, Atualização 19/08/2026 17:47

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Com mais de 500 obras registradas, Chico Buarque é um dos artistas mais regravados do país, com quase mil músicas reinterpretadas por outras vozes e em diferentes arranjos. Uma versão mais pop com riffs de guitarra e sintetizadores das canções que fazem parte do imaginário coletivo dos brasileiros é a proposta do espetáculo cênico-musical Chico Buarque – Um outro olhar. Apresentado pelo duo Nu’zs, formado pela atriz e cantora mineira Marcê Porena, e Max Silva, arranjador e guitarrista paulista, o show chega amanhã a Campina Grande em sessão única no Teatro Municipal Severino Cabral, a partir das 20h. Os ingressos podem ser adquiridos pelo Sympla e custam entre R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia).

São 20 canções com uma base na música eletrônica, no rock e na psicodelia que incorporam novos elementos até então pouco usados em gravações da obra do artista carioca. Um dos elementos que mais sobressaem no show com a carga teatral de Marcê Porena é a forma com qual ela redireciona o texto de Chico Buarque. “Não é um espetáculo de teatro, ele não tem um texto dramatúrgico. É um show de música, mas a forma como a Marcê usa as palavras na poesia do Chico, ela coloca naturalmente a dramaticidade ao lado da atuação. Isso proporciona a ela uma outra subjetividade em relação à interpretação. É o nosso olhar dentro da obra do Chico”, classifica Max Silva, que assina também a direção musical.

Peguei as músicas dele e escrevi nota por nota da melodia. E fui ver quais melodias se enquadrariam dentro de um contexto mais pop - Max Silva

Para a criação dos arranjos, o músico precisou reconstruir toda a orquestração das composições de Chico Buarque, readequando as harmonias e substituindo por exemplo o violão por timbres de guitarras pouco usuais na obra buarqueana. As melodias, porém, estão preservadas. “Respeitamos muito a obra do Chico e não iríamos mexer numa coisa que ficasse completamente fora de contexto. Peguei as músicas dele e escrevi nota por nota da melodia. E fui ver quais melodias se enquadrariam dentro de um contexto mais pop. Simplifiquei alguns caminhos de harmonia, inverti os baixos e essa mudança traz um caminho harmônico diferente. Depois de tudo isso, a gente foi pesquisar timbres, que timbres seriam interessantes, percebendo quais loopings se enquadram”, detalha ele.

O espetáculo é dividido em dois atos. O primeiro se destaca justamente por essa linguagem mais pop e eletrônica, e é marcado pela interpretação de canções como ‘O meu amor’ e ‘Folhetim’. “O show começa para cima. Pode-se dizer que a gente divide o primeiro ato como sendo o do amor. E no segundo ato é onde a gente se envolve mais com o público, tira o contexto eletrônico e trabalha muito a parte de guitarra e voz, também muitas coisas cantadas à capela também”, descreve Silva. É neste segundo ato que estão canções mais políticas e sociais do repertório de Chico, mas que ainda assim são canções bem intimistas, como ‘As Vitrines’ e ‘Cálice’. Compõem ainda o espetáculo sucessos como ‘Tatuagem’, do álbum Calabar, ‘Sem Açúcar’, do disco Chico e Bethânia, além de ‘Sob medida’ e ‘Olhos nos olhos’.

Optando por explorar a tecnologia gravando todos os instrumentos, de baterias a sintetizadores, suprimindo, assim, a necessidade de banda ao vivo, algumas músicas se mostraram especialmente desafiantes para a dupla. Um exemplo disso é Geni e o Zepelim, que o Nu’zs lançou há três semanas nas plataformas de streaming em formato de single. “Ela já é uma música complexa, porque ela tem seis minutos e pouco. Então ali ela tem mudança de fórmula de compasso, saindo de um 6x8 e vai para um 3x4. Ela tem mudança de andamento, tem toda essa sofisticação nesse quesito. Muitas coisas eu reduzi, muitas outras eu procurei outros caminhos e a intenção era dar uma sonoridade realmente diferente. Não foi de um dia para a noite, não. ‘Geni e o Zepelim’ demorou seis meses para ficar pronto”, explica o músico sobre seu processo de tornar os arranjos minimalistas.

Para a formação do repertório que o duo desenvolve desde 2018, Marcê Porena e Max Silva decidiram apostar na memória afetiva de ambos, por isso a predominância de canções da década de 1970. Todo o processo de reinterpretação dessas músicas foi devidamente aprovado pela editora responsável pela gerência da obra de Chico Buarque. “A relação nossa com ele é excelente. A gente tem um contato direto com a assessoria pessoal do Chico. A gente infelizmente ainda não o teve na platéia, não tivemos esse privilégio de ele assistir, mas ele com certeza está por dentro de tudo, vê tudo. Tudo passa pelo crivo dele”, garante Max Silva.

Foto: Luiz Alvez/Divulgação

Na primeira vez que o dueto Nu’zs chega a Campina Grande, o público da cidade ganha uma oportunidade de perceber a genialidade de Chico Buarque através de outras sensibilidades e novas subjetividades. “Existe o ganho de você refletir sobre algumas mensagens do autor que não foram tão entendidas, proporcionando ao público uma outra sensação. O mais importante, na verdade, que o público vai receber da gente é o amor. A gente interpreta as canções com muito amor. Queremos levar um pouquinho de humanidade também através da obra dele, que é uma obra amorosa, uma obra sensual, uma obra séria, uma obra que faz as pessoas pensarem, refletirem, até mesmo sobre o comportamento delas, porque é uma música que coloca a gente numa posição de refletir. O público pode receber e a gente está indo de coração aberto, espero que a gente toque o coração de Campina Grande também”, conclui Max Silva.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 08 de novembro de 2023.

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