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CINEMA

Reencontro com Macabéa

Publicação 20/05/2024 09:08, Atualização 19/08/2026 12:00

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Há cerca de 40 anos, a história de uma moça sonhadora e ingênua que deixa o berço nordestino para tentar a vida na região Sudeste tomou as telas de cinema do Brasil e do mundo. De nome Macabéa, essa moça é a protagonista do filme A Hora da Estrela, clássico da cinematografia nacional adaptado da obra homônima de Clarice Lispector. Vivida com maestria pela atriz Marcélia Cartaxo, Macabéa volta a dar as caras nos cinemas do país, em cópia restaurada digitalmente e distribuída pela Sessão Vitrine Petrobras. Em João Pessoa, o filme será exibido na próxima terça-feira (21), em sessão única, no Cinépolis Manaíra, às 19h.

No filme, Marcélia Cartaxo contracena com Fernanda Montenegro, que interpreta uma cartomante
No filme, Marcélia Cartaxo contracena com Fernanda Montenegro, que interpreta uma cartomante

Lançado originalmente em 1985, no Festival de Brasília, e entrando em cartaz em 1986 nos cinemas, o primeiro longa-metragem da cineasta Suzana Amaral colecionou prêmios: venceu

 o Urso de Prata de melhor atriz (a paraibana é a primeira atriz brasileira a realizar esse feito) e o prêmio

 da crítica no Festival de Berlim, em 1986, depois de ter angariado seis prêmios em Brasília, incluindo melhor filme e melhor direção. A Hora da Estrela foi, ainda, eleito pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos (está em 42o). “É o carro-chefe do meu currículo. A importância que esse filme tem é tanta que até hoje eu busco referências nele”, diz Marcélia Cartaxo.

Antes de chegar aos cinemas, a versão restaurada de A Hora da Estrela teve pré-estreia gratuita na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, no último dia 9. Realizada ao ar livre, a exibição contou com a participação de Marcélia, e também de Assunção Hernandes, produtora do filme, e Claudia Rezende, uma das filhas de Suzana Amaral — a cineasta faleceu em 2020. “Foi maravilhoso participar desse momento. A cópia está limpa, com fotografia incrível, som maravilhoso... Torço para que outras obras importantes para a história e a memória do cinema brasileiro tenham a mesma oportunidade de serem restauradas”, ressalta.

O relançamento de A hora da Estrela faz parte de um projeto da Petrobras que busca distribuir e democratizar o cinema brasileiro em salas comerciais. O filme foi restaurado digitalmente em 4K a partir das gravações originais de áudio e vídeo e está sendo relançado em 20 cidades brasileiras. Além de Marcélia e Dumont, o elenco desse filme conta com Fernanda Montenegro, Tamara Taxman, Umberto Magnani e Marcus Vinicius.

 A atriz

Considerada uma das maiores atrizes brasileiras, Marcélia Cartaxo nasceu em Cajazeiras, Paraíba, em outubro de 1963. Começou a trabalhar no teatro aos 12 anos de idade, na sua cidade natal. A consagração nacional veio cedo, já na estreia no cinema, com A Hora da Estrela.

De lá para cá, ela segue brilhando tanto nos palcos quanto no cinema e na televisão. Tem atuações destacadas em filmes como em Madame Satã, de Karim Aïnouz (2002) — pelo qual recebeu o Prêmio de melhor atriz no então Grande Prêmio do Cinema Brasileiro (hoje Prêmio Grande Otelo) —, e Pacarrete (2020), de Alan Deberton — filme que lhe deu o prêmio de melhor atriz do Festival de Gramado.

Com dezenas de prêmios e de personagens, Marcélia é também cineasta. Em 2016, o seu filme de ficção, Redemunho, foi um dos grandes vencedores do festival Cine PE, nas categorias de melhor curta-metragem, melhor ator (para Daniel Porpino), melhor roteiro e Prêmio Canal Brasil. No streaming, vive, atualmente, a personagem Zeza, na série Cangaço Novo (2023).

 O filme

Macabéa, nordestina de Alagoas, é uma mulher pobre, solitária, silenciosa, semianalfabeta, quase sem consciência da própria existência — um ser praticamente invisível. Depois de enterrar a última parente que lhe restava, ela migra para o Sudeste — no livro, a cidade é o Rio de Janeiro, mas o filme ambienta a história em São Paulo.

Na metrópole, ela aluga um quarto em uma pensão, consegue um emprego de datilógrafa e, nas horas livres, ouve a Rádio Relógio. Apaixonada pelo ambicioso Olímpico de Jesus (José Dumont), um metalúrgico nordestino que logo a trai com uma colega de trabalho, a jovem se desespera e procura a ajuda de uma cartomante, que lhe prevê um futuro luminoso.

No filme, a trajetória de Macabéa é contada em estilo realista clássico, simples e direto, sem a intervenção de uma voz narradora ou de comentários exteriores à experiência vivida pela personagem — diferente do livro, em que o narrador Rodrigo S. M. faz reflexões existenciais durante toda a obra.

 O livro

Em 1977, em sua última entrevista — concedida ao jornalista Júlio Lerner, do programa Panorama, da TV Cultura —, Clarice Lispector descreve o romance como “[...] a história de uma moça tão pobre que só comia cachorro-quente. A história não é isso só, não. A história é de uma inocência pisada, de uma miséria anônima”.

A obra literária levada às telas cinematográficas é, também, o último livro publicado pela escritora, lançado pouco tempo antes de ela morrer. Nele, Clarice se afasta da inflexão intimista que caracteriza a sua escrita e desafia a realidade, com personagens muito diversos dela — que sempre esteve no centro dos seus relatos.

Na última página, depois de Macabéa, enfim, viver o seu momento de estrela, o narrador do livro (espécie de alter ego da autora), solta: “E agora — agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora lembrei que a gente morre.”chegando no Brasil”, destacou Kim.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de maio de 2024.

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