Publicação 26/07/2023 09:19, Atualização 19/08/2026 16:39
Independentemente das motivações que levaram ao assassinato do ex-presidente da Paraíba, João Pessoa, a morte do paraibano, em 26 de julho de 1930, trouxe uma reviravolta ao cenário político nacional. Hoje, às 9h, familiares, amigos e autoridades do Estado irão participar de uma cerimônia religiosa e, em seguida, de um ato cívico na Praça João Pessoa, na capital paraibana. A solenidade voltou à praça, porque o Palácio da Redenção, onde os restos de João Pessoa se encontram em uma cripta, está em reforma.
O governador João Azevêdo será representado por Roberto Paulino, ex-governador do Estado e atual secretário-chefe do Governo. A cerimônia religiosa em homenagem aos 93 anos de morte de João Pessoa será realizada na Igreja da Misericórdia, no Centro, e contará com a presença de familiares do homenageado a exemplo do jornalista Abelardo Jurema Filho e do vereador Fernando Milanez Neto, além de autoridades estaduais e representantes de instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP).
Após a celebração religiosa, os participantes sairão rumo à Praça João Pessoa onde ocorrerá o ato cívico. O sobrinho-neto do ex-governador paraibano, Abelardo Jurema Filho, afirmou que Fernando Milanez Neto, que é sobrinho-bisneto do homenageado, irá falar em nome da família.
Para Abelardo, João Pessoa é um nome que deveria ser lembrado por todos os paraibanos. “João Pessoa é um nome que, não só a família, mas toda a Paraíba deveria se orgulhar, porque ele cumpriu um papel importante no Estado. Todo confronto tem vencedores e vencidos, e tem sempre alguém insatisfeito com a trajetória dele. Na época, pensava-se que ele seria um instrumento das oligarquias, mas isso não aconteceu. João Pessoa foi contra os atos dos coronéis e instituiu impostos na Paraíba”, frisou Abelardo.
O acadêmico Ramalho Leite, presidente da APL, disse que “João Pessoa foi o último governante da oligarquia fundada por Epitácio a partir da sua vitória eleitoral em 1915. Fazendo pouco caso das recomendações do Tio Pita, João Pessoa tentou modificar os costumes políticos e administrativos do Estado, arraigados desde a fundação da República. Atingiu de início os próprios correligionários do tio, os coronéis que no interior só tinham uma lei - a do quero, posso e mando. A reação surgiu contra ele e seu governo. Os excessos cometidos contra os adversários constituíram inimigos. Um desses, atingido ele e a família por ações do governo, lhe tirou a vida. Sua morte, transformada em bandeira política, fez eclodir a chamada Revolução de 30 que depôs Washington Luiz e colocou Getúlio Vargas no poder.”
Durante o ato cívico na Praça João Pessoa, algumas palavras também vão ser proferidas pelo presidente do IHGP, o advogado e historiador Jean Patrício. De acordo com ele, o líder paraibano é importante para o Estado e o país por vários motivos. “João Pessoa foi presidente (governador) do estado entre 1928 e 1930 e foi candidato a vice-presidente da República na chapa da Aliança Liberal, ao lado de Getúlio Vargas. Eu colocaria a importância dele em dois aspectos. O primeiro é o João Pessoa administrador, gestor público. Ele foi um excelente gestor em relação à atualização do salário dos servidores públicos, no tocante ao Fisco Estadual, ao aumento da arrecadação do Estado, e foi feliz em relação à várias obras públicas que realizou”.
O historiador acrescentou que João Pessoa teve “muito respeito” com os recursos públicos. “Outra coisa interessante é o pós-morte, em relação à Aliança Liberal, a qual integrava. A Aliança Liberal defendia o voto secreto, o voto feminino, o Ministério do Trabalho, o Ministério da Previdência, e a ampliação dos direitos sociais. Getúlio apresentou essa plataforma durante a campanha de 1930, na Esplanada do Castelo, com a presença de João Pessoa. Isso está documentado na revista O Cruzeiro. E João Pessoa abraça essas causas. Os ideais dele permanecem vivos. Então, João Pessoa está mais vivo do que nunca”, ressaltou Jean Patrício.
Assassinado pelo advogado João Dantas no dia 26 de julho de 1930 na Confeitaria Glória, em Recife, a morte de João Pessoa causou uma reviravolta política no país. Após o ato de João Dantas, uma verdadeira comoção se instalou entre os paraibanos. A bandeira do Estado e o nome da capital foram alterados, e um grupo de revoltosos instaurou um clima de tensão na Paraíba, culminando com a Revolução de 1930. No seu curso, o conflito resultou na destituição do presidente Washington Luís e na força de Getúlio Vargas, que assumiu o poder do país, evitando que Júlio Prestes, que havia ganho as eleições em março daquele ano, assumisse o cargo.
Os historiadores divergem em relação à postura política e os verdadeiros motivos da morte de João Pessoa. O historiador Martinho Guedes dos Santos Neto, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e autor de dois livros que abordam a década de 1930 - “Regime de Interventorias - política e sociedade da Era Varga (1930-1945)” e “Os Domínios do Estado - a interventoria de Anthenor Navarro e o poder na Paraíba (1930-1932)”, afirma que a morte do paraibano foi ocasionada por motivos pessoais e que a postura dele contra a ordem vigente era para evitar a “bancarrota” da Paraíba.
Segundo Martinho, no final da década de 20, a Paraíba vivenciava forte crise econômica agravada por questões climáticas e fatores externos, como a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, em 1929. E para evitar que a Paraíba não entrasse em colapso financeiro e sofresse a intervenção do presidente da República, João Pessoa foi obrigado a buscar meios para arrecadar recursos e alavancar a economia paraibana. Ele agiu, então, para evitar essa interferência presidencial e a falência do Estado, e não porque tinha ideias totalmente opostas ao poder oligárquico que o levou ao governo. “Esses agravantes fizeram com que João Pessoa tentasse reorganizar as finanças do Estado, tomando uma série de medidas necessárias para que a Paraíba não fosse à bancarrota, e aí contrariou o poder local, inclusive seu tio, Epitácio Pessoa, e o grupo político ao qual fazia parte”, contou Guedes.
Por conta dessa postura que desafiava o poder instituído e impedia a indicação de nomes de políticos por meio dos coronéis e proprietários de terras, João Pessoa não demonstrou apoio à candidatura de José Pereira, na cidade de Princesa, culminando com a Revolta de Princesa, rebelião que se voltou contra o gestor estatal. Mesmo nesse contexto de conflito e insatisfação, João Pessoa deu andamento à campanha presidencial junto a Getúlio Vargas, aparecendo na chapa como vice-presidente.
“A questão da mudança do nome de João Pessoa é uma questão absolutamente tola e sem sentido"
Dentro dessa conjuntura de insatisfação, ele acumulou vários desafetos e um deles era a família do famoso advogado João Dantas, de Teixeira. “Numa dessas brigas de falação, João Pessoa atacou a honra de João Dantas e o acusou de não respeitar mulheres da sociedade. Então, João Dantas foi a Recife e lá ocorreu o assassinato que não tem nenhuma conotação política, embora os Dantas fossem adversários políticos de João Pessoa. Mas, o motivo que levou ao assassinato foi de cunho pessoal, privado”, contou Martinho.
Outra polêmica, que sempre cerca as homenagens a João Pessoa, é o nome dele ter sido dado à capital paraibana. Para o historiador José Octávio de Arruda Melo, “A questão da mudança do nome de João Pessoa é uma questão absolutamente tola e sem sentido. João Pessoa é uma figura que já passou a História. A ação dele é uma ação consagrada e ele abriu caminho para a Revolução de 30, não através da morte dele, mas sim através do tipo de governo que ele realizou. João Pessoa empreendeu aqui na Paraíba uma experiência que consagra o modelo que será levado para o Plano Nacional por Getúlio Vargas. É o modelo politicamente autoritário, economicamente modernizador e socialmente corporativo. Esse é o modelo que vai presidir o destino do Brasil a partir de 30. Então não há motivo para mudar este nome, até porque é uma minoria insignificante de saudosistas do Velho Regime, cognominados de saudosistas do tempo feudal, que adere a esta ideia”
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Durante a missa na Igreja da Misericórdia, Abelardo Jurema Filho irá distribuir entre os presentes um texto em homenagem ao tio-avô. Em parte do texto ele diz: “Neste 26 de julho, voltaremos a exaltar a memória do presidente João Pessoa que deixou o seu nome marcado na história da Paraíba, não pela sua morte, no trágico episódio da Confeitaria Glória, mas pelo que foi em vida, administrando o estado com visão de futuro, libertando o povo das garras do coronelismo e projetando o seu nome como candidato a vice-presidente da República”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 26 de julho de 2023.