Publicação 18/09/2023 09:42, Atualização 19/08/2026 17:23
Quando Mestra Penha tinha cerca de 10 anos, ela ia trabalhar cortando cana-de-açúcar e via o seu pai do alto de um cavalo conduzir as cabeças de gado para o pasto na fazenda do patrão. Uma rotina diária que começava logo cedo pela manhã, que já vinha quente. Com o nascer do sol, o som que cortava o dia era o da vocalização arrastada e melódica que seu pai produzia para tanger o boi. Ainda criança, Mestra Penha Cirandeira só podia ouvir aquelas interjeições rústicas feitas de improviso. “A gente morava na Usina Santa Helena [em Sapé]. Eu escutava ele aboiando, cantando enquanto trabalhava. Foi lá onde eu aprendi a tocar bombo e ganzá com ele. Quando era de meio-dia, a gente trazia de volta para casa o gado para tomar água”, lembra a artista paraibana.
"Eu escutava ele (seu pai) aboiando, cantando enquanto trabalhava. Foi lá onde eu aprendi a tocar bombo e ganzá com ele. Quando era de meio-dia, a gente trazia de volta para casa o gado para tomar água" Mestra Penha Cirandeira
Aos 60 anos e sendo uma referência na cultura popular, Mestra Penha mora em Várzea Nova, no município de Santa Rita, e continua aboiando seu canto que, ao invés do gado, hoje conduz, através da música disponível nas plataformas de streaming, os relatos de sua vida com o trabalho no roçado, no mangue, na olaria e nas danças dos terreiros da usina, onde se criou. “Minha vida é um romance/ de tristeza e ilusão/ parece que o destino veio me trazer traição/ Minha esperança é perdida/ Se eu cantar a minha vida/ Dói em qualquer coração/ Já amei e fui amado/ Já bebi bem satisfeito/ Já perdi a mocidade/ Já tive tudo que eu tinha direito/ Minha esperança é perdida/ Se eu cantar a minha vida/ Vai doer dentro do meu peito”. É como canta o aboio a dona da voz potente enquanto domina com primor o toque de sua zabumba.
Esses aprendizados e heranças ancestrais são as marcas que foram recebidas por Mestra Penha diretamente de seu pai, José Francisco do Nascimento, oriundo do Quilombo de Caiana dos Crioulos, em Alagoa Grande. Já a mãe, Maria Eunice, tem raízes indígenas. Ela ensinou à filha o conhecimento passado de geração em geração sobre o segredo das marés e sobre como pegar marisco, unha-de-velho e sururu. Com esse conhecimento que vem da convivência de antepassados com a natureza e a elaboração criativa disso tudo em arte, Mestra Penha é só um dos melhores exemplos de quem une o sentido do termo cultura como criação de códigos de expressão essenciais para a existência humana, com o seu sentido mais seminal, que está associado à agricultura e ao cultivo da terra e manejo dos bens naturais. Uma origem que deve orgulhar a qualquer artista, popular ou erudito.
“Conheço da cana, da agricultura, né? Negócio de roçado, conheço tudo”, afirma Mestra Penha. “Eu me sinto feliz cantando, tocando. É, eu tá em cima de um palco, e o pessoal tudo fazendo a roda, cantando. E quando eu termino, o povo me aplaude. É muito lindo, eu gosto demais. Eu amo a cultura, eu amo o que eu faço”. O plantar, o nutrir e o colher se desenvolveram em seus significados figurativos para se referir também a qualquer tipo de cultivo, não apenas o agrícola. Foi através do cuidado envolvido no trato com as plantas e animais que a acepção chegou a abranger o intelecto humano e até a criação de obras de arte. Uma dança, um poema ou uma sinfonia compartilha dessa mesma ideia primária que foi fundamental para a evolução humana. Há 50 mil anos, os seres humanos eram verdadeiros especialistas na arte da sobrevivência e foi por causa da agricultura e tudo que veio dela que a espécie humana conseguiu promover um salto evolucionista e chegar à Revolução Científica.
Os seres humanos, especialistas na arte de sobreviver, evoluíram à Revolução Científica a partir da agricultura
É fácil ter uma percepção arrogante para com os ancestrais, mas isso é uma ignorância. Eles possuíam um conhecimento profundo do seu território e estavam completamente sintonizados com o ambiente à sua volta, retendo apenas na memória informações detalhadas sobre plantas e animais. Em termos de aptidão física, seus corpos eram comparáveis aos dos atletas contemporâneos. Seus cérebros possuíam um volume maior que os demais humanos. Coletivamente, o homem detém mais conhecimento atualmente, mas, como indivíduos, os ancestrais eram superiores. Entretanto, cerca de doze mil anos atrás, em várias regiões, os seres humanos deram início à agricultura, o que trouxe uma transformação rápida e abrangente para o desenvolvimento de novas habilidades, inclusive as artísticas.
“De modo geral, na teoria antropológica, a cultura é compreendida como a ‘segunda natureza’ da humanidade. Ou seja, nossa singularidade na existência é dada pelo aspecto tipicamente cultural de nossa organização social. Esse aspecto é nossa capacidade de simbolizar, de atribuirmos sentidos abstratos que interferem no mundo material e no modo como nos relacionamos com ele”, explica o doutor em Antropologia Estêvão Palitot. Com experiência na área de Antropologia e Sociologia da Cultura, ele dá um exemplo: “Nós e nossos primos chimpanzés somos animais sociais e compartilhamos determinados aspectos de linguagem e cognição. Mas apenas a humanidade consegue distinguir a diferença entre a água do rio, a água benta e a água destilada. Ou seja, essa é a única capacidade que a cultura nos permite enquanto uma natureza específica”.

A formação do entendimento sobre o que é cultura nasce da associação do gesto de afagar a terra, por conhecer os desejos da terra. Como na letra de Chico Buarque: “Cio da terra, a propícia estação/ E fecundar o chão”. Uma relação corporificada em Mestra Penha, e que é muito bem ilustrada pelas palavras poéticas do músico Adeildo Vieira quando fala sobre ela. “Toda essa história de vida é traduzida na crueza da sua voz, como uma foice cega capaz de cortar a cana que faz o melhor mel. Foice feita de aço que não quebra. A voz de Penha ecoa nos ouvidos da nossa existência nordestina. Uma existência bailada no coco de roda”.
O aumento da eficiência na agricultura sinalizou o surgimento da civilização. A oferta confiável e previsível de alimentos permitiu a acumulação desses itens em larga escala, permitindo a fixação em um território. Quanto mais organizados os homens se tornavam, mais eficazes ficavam. Aldeias deram lugar a cidades, cidades evoluíram para reinos, e reinos se transformaram em impérios. A interconexão entre os seres humanos expandiu-se, criando oportunidades para a troca de conhecimento. Foi só assim que, depois de mais de dez mil anos, que foi possível chegar à transformação no pensamento e na prática científica. Cultivando e gerando cultura.
Cientistas como Galileu Galilei, Johannes Kepler e Isaac Newton introduziram novas abordagens para a investigação científica, baseadas em observação sistemática, experimentação controlada e uso de métodos matemáticos. Essa revolução científica aconteceu em paralelo com o Renascimento, um movimento cultural e intelectual que promoveu a redescoberta dos textos clássicos gregos e romanos e incentivou o pensamento crítico, a criatividade e a exploração do conhecimento em várias áreas. Nos séculos XVI e XVII, esse movimento desafiou crenças tradicionais, incluindo as baseadas em autoridade religiosa, e promoveu uma abordagem mais empírica e racional para entender o mundo natural. Essa mudança cultural levou ao desenvolvimento da ciência moderna como se conhece hoje e uma transformação profunda na arte.
Se a agricultura é um marco fundamental para a evolução da espécie humana, é a cultura que permite uma adaptação muito mais rápida e flexível ao ambiente em que vivemos. E desde Charles Darwin que se sabe a importância da adaptação para a perpetuação da espécie. Enquanto a evolução biológica pode levar milhares de anos para produzir mudanças significativas nas características físicas dos seres humanos, a cultura permite que adaptação ao ambiente de forma muito mais rápida. Através da criação de ferramentas, técnicas agrícolas, métodos de sobrevivência e estratégias de cooperação, os seres humanos podem enfrentar com sucesso uma ampla variedade de ambientes e desafios.
É a cultura que permite que o conhecimento acumulado seja transmitido de geração em geração. Isso significa que cada nova geração não precisa “reinventar a roda”, mas pode construir a partir do conhecimento e das experiências das gerações anteriores. Esse acúmulo de conhecimento possibilita avanços significativos em ciência, tecnologia, medicina e outras áreas, levando a uma evolução cultural e tecnológica acelerada. A cultura também contribuiu ao moldar o comportamento social e a organização das sociedades humanas. Através da transmissão de normas, valores, regras sociais e éticas, a cultura estabelece padrões de comportamento que afetam diretamente o modo como as pessoas interagem umas com as outras. Esse comportamento social influencia a formação de laços sociais, relações familiares, estrutura de poder e cooperação em comunidades.
“Meu pai cantava esse aboio, mas tirei ele de um jeito diferente para cantar sobre a vida que eu passei. Ficou meio doidinha, mas fui eu mesma que inventei”, diz Mestra Penha, logo depois de cantar o aboio ‘Minha vida é um romance’. “Ele tinha cinco filhos, mas ele só levava eu quando saía. Eu era a mais interessada nas músicas e nos cantos dele. Quando era no sábado e no domingo, que ele gostava de tomar uma cachaça, entonces ele me colocava na garupa do cavalo. Eu segurava na cintura dele e era o cavalo que trazia a gente para casa, porque já sabia o caminho”. Sem a cultura não haveria linguagem e comunicação, fundamentais para o compartilhamento de informações, de ideias complexas, para a construção de identidades culturais.
“Cultura e arte são duas dimensões intimamente relacionadas. Mas muitas vezes incorremos no erro de associar esses termos com erudição e escolarização, reproduzindo visões etnocêntricas ou elitistas que caracterizam apenas um determinado grupo como detentor e herdeiro de todas as formas válidas de cultura e arte, enquanto outros seriam bárbaros desprovidos de refinamento”, aponta Estêvão Palitot. “Em termos antropológicos todos os grupos humanos são criadores e portadores de cultura e de suas manifestações estéticas. A hierarquização imposta nesse sentido será sempre classista, colonial e racista, ao tratar alguns grupos como mais evoluídos que os outros. É preciso estarmos atentos a esses perigos. A chamada ‘civilização ocidental’ se construiu justamente a partir da estigmatização, exotização e subalternização das outras humanidades e da própria natureza”.
Só assim foi possível criar uma rede de colaboração entre os seres humanos em escala global. À medida que as sociedades se encontram com outras culturas, ocorrem trocas culturais, empréstimos e assimilações, o que contribui para a diversidade cultural e o surgimento de novas ideias e práticas. A cultura é essencial para a existência humana, pois permite que as pessoas se conectem e compartilhem experiências comuns. Ela influencia a maneira como se comunica, seja por meio da linguagem falada, escrita, arte, música, dança ou outras formas de expressão.
Além disso, a cultura também desempenha um papel significativo na forma como os códigos de expressão são criados e compreendidos. Por exemplo, diferentes culturas podem ter idiomas únicos, com palavras, frases e significados específicos que refletem sua visão de mundo e valores. A cultura também pode afetar a maneira como a arte é produzida e apreciada, com estilos e temas variados que refletem a diversidade cultural. Só no século 19 que o termo cultura se tornou ainda mais abrangente, incorporando as áreas das artes, literatura, música, filosofia e outras disciplinas humanísticas. Na era moderna, a noção de cultura também se estendeu para o campo da tecnologia.
Os instrumentos e suportes tecnológicos têm tido um impacto profundo na forma de pensar, produzir e divulgar obras artísticas em diversas formas de expressão. Isso tem contribuído para refletir como os valores, as práticas e as identidades estão relacionados ao uso e ao desenvolvimento de tecnologias. A cultura digital, por exemplo, refere-se às formas de comportamento, comunicação e interação que surgiram com o advento da tecnologia digital. Isso inclui a maneira como as pessoas se comunicam on-line, participam de redes sociais, compartilham informações e consomem mídia digital. A cultura digital também abrange fenômenos como memes, tendências virais e até mesmo novas formas de expressão artística que surgem nesse ambiente.
A tecnologia proporciona ferramentas e recursos avançados para a criação artística. Softwares de design gráfico, edição de vídeo, música digital, modelagem 3D e muito mais permitem que os artistas explorem novas fronteiras criativas e produzam obras complexas e sofisticadas. A internet oferece um vasto acesso a recursos, referências e informações para artistas. Isso facilita a pesquisa, a inspiração e a coleta de material para projetos artísticos. É dessa água que bebe a cantora e compositora paraibana Luana Flores. Como beatmaker e percussionista, ela traz uma roupagem futurista para as tradições rítmicas do Nordeste, como o coco e a ciranda da Mestra Penha, e as expressões da oralidade característica das benzedeiras e dos aboios. Sua musicalidade parte da fusão entre o eletrônico e os ritmos da cultura popular. Sem a tecnologia que ela explora, a persona artística de Luana Flores seria completamente diferente.
“Normalmente, a gente associa tecnologia a equipamentos eletrônicos, internet e robôs. Mas acho interessante pensar que os ritmos de nosso território também são manifestações de tecnologias ancestrais. O coco não é só um ritmo. Ele é memória, é tecnologia, é ciência, é conexão espiritual, é o conhecimento que vai ser passado por gerações. Imagine criar instrumentos a partir de uma árvore, relembrar melodias de nossos antepassados e trazer para o digital, como estamos fazendo com a música, o audiovisual e a dança. Essa simbiose é um movimento de consequência dos desdobramentos da contemporaneidade que caminha para um novo pensamento”, explica a artista.
Luana Flores é uma artista de seu tempo e defende valores humanos que são sacudidos pela cultura tecnológica. Essa percepção de cultura se refere ao conjunto de valores, crenças e práticas que estão relacionados ao uso de tecnologias em uma determinada sociedade. Isso inclui a forma como as pessoas adotam ou resistem a novas tecnologias, bem como as normas e as expectativas sociais em torno do uso de dispositivos eletrônicos, aplicativos e plataformas. Ela faz isso expandindo as suas possibilidades criativas, mesclando várias mídias e técnicas em suas obras, criando híbridos de arte digital que são facilitados pela tecnologia.
"Normalmente, a gente associa tecnologia a equipamentos eletrônicos, internet e robôs. Mas acho interessante pensar que os ritmos de nosso território também são manifestações de tecnologias ancestrais" Luana Flores
Uma coisa é certa. Ainda se está no início do processo de revolução da arte pelos meios tecnológicos e digitais. Isso inclui instalações de arte interativa, realidade virtual (VR) e arte generativa, que acontece quando algoritmos são usados para criar arte em tempo real. A tecnologia também possibilitou o surgimento de novas formas de expressão artística, como arte de realidade aumentada (AR) e arte de inteligência artificial (IA). Elas exploram as fronteiras entre arte e tecnologia, e são múltiplas: software art, net-art, glitch-art, machine learning, arte cibernética, escultura digital, game-art, hologramas, performance transmidiática, arte hacker, boomerang e até GIF animado e meme, entre muitas outras linguagens.
A tecnologia permite que artistas acessem mercados globais de arte, conectando-se a colecionadores, galerias e compradores em todo o mundo. Isso levou a criação de NFTs, que transformou o mercado de obras de artes digitais. Essa tecnologia que vem na esteira do bitcoin cria uma representação digital única de um item exclusivo, que pode ser digital – como uma arte gráfica feita no computador – ou física, a exemplo de um quadro. Além de obras de artes, músicas, itens de jogos, momentos únicos no esporte e memes podem ser transformados em um NFT. Esse mercado de certificados digitais de propriedade movimentou apenas entre janeiro e setembro de 2021 cerca de US$ 13,2 bilhões.
A relação entre tecnologia e arte é dinâmica e continuará a evoluir à medida que novas inovações tecnológicas surgirem. “Estamos em um movimento de democratização dos saberes digitais. Ainda estamos caminhando em direção à nossa autonomia. As conexões digitais com as tradicionais vêm gerando um movimento interessante de novas criações e possibilidades de nossas tecnologias digitais e ancestrais”, analisa Luana Flores. “Quero ser essa ponte entre passado e futuro, propondo novas narrativas e conectando com as novas gerações através da inserção desses tipos de sonoridades mais modernas”. Da agricultura à “criptoarte”, produzir cultura é da natureza do ser humano.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 17 de setembro de 2023.