Publicação 27/03/2025 09:29, Atualização 18/08/2026 15:56
Tudo começou com uma conversa sobre sonhos: há alguns meses, a cantora pessoense Maria compartilhou seus anseios de vida com a amiga e diretora artística Joyce Barbosa. No caminho de volta para casa, ela recebeu, por inspiração divina, talvez, a melodia de “Luminosa” — música-gênese e nome do seu primeiro álbum solo, que chega hoje às plataformas digitais. No embalo dessa estreia, a artista anuncia, para o dia 4, às 19h, o show que celebrará essa nova etapa de sua carreira, ao lado da pernambucana Flaira Ferro: será no Teatro Paulo Pontes, situado no Espaço Cultural, na capital. Os ingressos estão disponíveis no site Sympla. Em conversa com A União, Maria comentou Luminosa faixa a faixa, com carinho e orgulho.
“Quero cantar as minhas músicas / A minha forma de amar / Quero falar tudo que eu sinto / o que eu sinto aqui dentro”. A guitarra de Lucas Gaião e os versos que abrem a música anunciam as intenções de Maria com o novo trabalho. “O nome ‘Luminosa’ veio nesse intuito de mostrar que há uma luz dentro da gente, a partir dos nossos próprios sonhos, e que nos ajuda a materializá-los. Vivemos de propósito, da nossa missão. E a minha missão é cantar. O disco fala sobre isso, inclusive, sobre cantar, sobre ser artista. E sobre colocar as minhas canções no mundo”, pontua.
“Na força do sagrado ventre / Honrar pai e mãe pela semente / mas não se curvar as opressões”. Falar sobre suas origens e o impacto delas na sua é um tópico importante para a artista: adotada quando criança, Maria busca remontar seu passado biológico, sem deixar de refletir sobre o que viveu. “É sobre essa ancestralidade que eu sinto, mas que eu não conheço, o cantar que carrega toda essa força das mulheres e dos homens, dos parentes que vieram antes de mim, e que, de alguma forma, está impressa na minha voz. Todas essas origens acompanham a minha voz e estão em todo o álbum”, assinala.
“Enxergar além dos olhos / Escolher lidar com a culpa / Saborear o estranho ser que habita em ti / Redefinir o caminho a seguir”. Escrita a quatro mãos pelas paraibanas Isis Queiroga e Naomi Barroso, conta com as vozes de Glaucia Lima, Vó Mera e Suzy Lopes. “Quando eu estava montando o setlist, escolhendo as faixas para o disco, essa canção retornou na minha cabeça. Eu senti que ela tinha que estar no Luminosa, porque tem tudo a ver com ele: fala sobre o invisível que faz as coisas acontecerem, algo que acredito muito. Fiquei muito feliz quando as meninas autorizaram essa gravação”, declara.
“Eu te deixo ir / o amor morreu / tenho que partir / não é nada seu / Só eu, sou eu / fui eu que aprendi a me olhar / Só eu, sou eu / Fui eu que aprendi a me amar”. Concebida como uma ode ao desapego e ao recomeço, após o fim de um relacionamento, inspirada pelas próprias experiências de Maria. “Olhei para essa letra e pensei: ‘Está faltando alguma coisa’. E de imediato eu pensei em Guga Limeira. Ele é um amigo muito querido, um parceiro desses anos todos de estrada, além de ser um grande incentivador do meu trabalho. Encaminhei a letra para ele, para finalizarmos juntos, e assim nasceu ‘Partida’”, informa.
“A minha casa tem pé e tem mão / A minha casa, fé e oração / A minha casa, meu pulmão e meu cantar / A minha casa é aqui, todo lugar”. Composta em parceria com Joyce Barbosa. Ao falar sobre identidade, a cantora remonta a mudança mais importante na sua carreira: batizada como Maria Alice, nome que usou como cantora até o ano passado, assina agora apenas como Maria. “Essa música é sobre isso, sim, pertencimento, no sentido de saber quem eu sou, e que faço parte desse mundo, de que eu mereço estar nele, tanto quanto qualquer outra pessoa. Essa faixa dialoga com a minha história”, assinala.
“Conectar com néctar da vida / Acreditar no teu profundo sonho / Esperança no passo de partida / Cantar, cantar, cantar teus oceanos”. Ao falar, aqui, de sua própria essência, a intérprete busca não esquecer daquilo que está no seu cerne, apesar das mudanças. “Mantive a minha paixão pela música e a certeza de ser cantora, quando eu disse para mim mesma, aos nove anos de idade, que eu seria cantora. Eu adoro o meu nome de batismo, Maria Alice, mas eu acho que, quando a gente assume o que a gente mais gosta, começa a ver o restante do mundo também com outros olhos — mais atentos, maduros”, diz.
“A tua pressa cega teu passo / Não sobra espaço pra criação / Do imaginário fogo latente / Só na tua mente há perfeição”. Dueto com a cantora Ylana, de Pernambuco, acompanhadas por quarteto de cordas: Mayra Brito, Rayssa Claudino, Ana Rosa e Letícia Carvalho. De onde vem sua pressa, Maria? “Eu tenho muita energia e pressa de fazer as coisas. Gosto de fazer tudo ao mesmo tempo. Mas, quando a gente quer muito uma coisa, às vezes se atropela nessa ‘corrida’ e não aproveita o processo, esbarra na ansiedade. Então ‘Pressa’ acaba sendo um recado para mim mesma: mais importante do que a chegada é o caminho”, assevera.
“Vídeo pra sentir saudade / foto pra lembrar presença / Cheiro pra acordar lembrança / som pra despertar vontade”. Nessa letra, Maria explora, além da música, outras linguagens para falar de afeto — das mais ancestrais às mais modernas. “Fiz teatro também e sou uma entusiasta de todas as artes. Mas, no dia a dia, eu costumo recorrer também à poesia, à pintura, à dança — esta última foi minha primeira linguagem artística, pela qual mantenho muito apreço. Todas elas são parte do meu cotidiano, tanto na vida prática, de modo geral, quanto nos shows”, garante.
“Você quer que eu me forme em medicina, seja advogada, engenheira / Mas na verdade não é isso que eu quero”. Espremida, no título, entre duas menções à “fome”, a “fama” não é objetivo principal de Maria: ela busca, em vez disso, reconhecimento. “Quando a gente decide seguir sendo artista, é por fome — de criar, de revolucionar, de transformar as realidades, de fazer esse mundo melhor. O reconhecimento desse trabalho é consequência dele próprio, do que a gente coloca no mundo. Eu almejo ter cada dia mais fome de fazer o que eu faço, porque é isso que me impulsiona para a frente”, atesta.
“Canto para todas elas / cis, trans, bi, as ‘sapatão’ / O machismo é um escroto, para ele grito ‘Não’”. Aqui, Maria divide os vocais com a também paraibana Sandra Belê, em letra que fala sobre como a mulher deve superar expectativas sobre ser frágil e submissa, assumindo a postura de “fera”. “Quando quis dividir essa canção com alguém, quis que fosse uma mulher como Sandra, que está à frente das nossas pautas feministas. Ela fala disso nos seus trabalhos e tem uma presença física e simbólica muito marcante na arte paraibana e nordestina. Ela é incrível e é, sim, uma ‘besta-fera’ total”, define.
“Amor é um bicho que se amplifica, multiplica, fica / Só recebe quem se abre, só dá quem se liberta e não se aperta”. Fechando o disco, Maria traz a participação de Flaira Ferro, pernambucana com quem dividirá o palco na semana que vem. “Eu acho que, além do amor, a arte e o sonho deveriam ser, cada vez mais, coletivos. Esse disco só foi possível porque eu o sonhei com outras pessoas — ele existe graças a uma campanha de financiamento coletivo, inclusive. Quando a gente faz coisas assim, juntos, conseguimos chegar muito longe. A gente não é muita coisa sozinho, não”, conclui.
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*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de março de 2025.