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Clássico do teatro paraibano em livro

Publicação 24/05/2024 09:36, Atualização 19/08/2026 11:58

Clássico do teatro paraibano em livro

“Eu tava deitada, lá dentro, tu te alembra? Na rede. Escutei os gemido... ‘Fome... fome... fome...’. Fiquei de orêia in pé... Quis me alevantá... mais, num podia... A dô era munto grande!”. O trecho emula em poucas palavras o universo da peça Acalanto de Joana, a Louca, escrita e dirigida pelo dramaturgo Fernando Silveira e encenada em 1970 durante o 1o Festival de Teatro Colegial de Campina Grande. O espetáculo trouxe para o palco do Teatro Severino Cabral temas emergentes que poderiam ter sido interditados pelo regime militar, como o coronelismo e a luta das ligas camponesas, mas que conseguiram ser encenados – mesmo com a chancela da Censura Federal, que o proibia para menores de 18 anos. 

Editado pelo professor e pesquisador Diógenes Maciel, o texto de Acalanto de Joana, a Louca está sendo publicado pela primeira vez em livro, a ser lançado hoje, no Memorial Severino Cabral, no Centro de Campina Grande. O evento marcado para as 10h tem entrada franca.

A obra editada pela Papel da Palavra conta com uma introdução e um posfácio elaborados pelo próprio Diógenes, a partir de pesquisa recente, publicada no periódico Discursividades, revista acadêmica da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), junto com o também pesquisador Mateus Rodrigues de Melo.

ACALANTO DE JOANA, A LOUCA
- De Fernando Silveira. Editora: Papel da Palavra. 148 páginas. Formato: 15 x 22 cm. Distribuição gratuita na primeira tiragem da versão física; depois, R$ 30.
- Lançamento hoje, às 10h.
- No Memorial Severino Cabral (Av. Pres. Getúlio Vargas, 344, Centro, Campina Grande).
- Entrada franca.

A peça se passa no município de Sapé e narra o encontro de Olavo, forasteiro nortista, com uma família pobre que ocupa tapera no latifúndio de um grande produtor rural. A personagem-título é a matriarca Joana (de quem parte o diálogo que abre a reportagem). Já enferma, ela enlouquece na tentativa de obter os bens trazidos por Olavo. Na peça, não há aridez: o espetáculo é ambientado no meio de um temporal e a seca é mencionada como um evento do passado. Mas, naquele momento, início dos anos 1970, a Paraíba carecia de chuva na “vida real”.  

“Uma seca assolou o nosso estado nesta época. Os jornais davam conta do grande fluxo migratório chegando aos centros urbanos mais desenvolvidos e do enorme problema humano e social que isso ocasionava. Havia uma série de reclames contra as ações da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e da Presidência da República”, explica Diógenes, citando o regime militar e a efervescência cultural campinense como outros dos contextos que influenciaram o desenvolvimento da obra. Na montagem de 1970, o próprio Fernando Silveira atuou, interpretando o Coronel Belém. Em 1986, outra versão da peça foi encenada no Teatro Santa Roza, em João Pessoa, com direção de Carlos Cartaxo.

Diógenes Maciel organizou e editou a publicação | Fotos: Divulgação

O livro obteve recursos da Lei Paulo Gustavo, através de edital publicado pela Secretaria de Cultura de Campina Grande. Por decisão de Diógenes em comum acordo com os herdeiros de Fernando, a primeira tiragem do livro será gratuita. A versão digital da obra também será disponibilizada sem custos, através do site da editora. “Ao voltarmos aos textos dramatúrgicos do passado, fazemos uma ação favorável à memória de nossa cultura, especialmente, de nossa cultura teatral. Esperamos que novos leitores possam encontrá-la e que possam redescobrir a importância de seu autor”, assevera Diógenes.

Escritor de radionovelas

Nascido no Ceará em 1920, Fernando Silveira desenvolveu diversos trabalhos em rádios e teatros de seu estado de origem nas suas duas primeiras décadas de vida. Prestes a completar 30 anos de idade, veio para a Paraíba recrutado por uma grande figura da nossa comunicação: Assis Chateaubriand lhe convidou para criar o núcleo de dramaturgia da Rádio Borborema de Campina, produzindo para este veículo diversas radionovelas a partir de 1949. Na década de 1960, estabeleceu-se como dramaturgo, vivendo um novo momento de sua carreira. Ainda nos anos 1970, transferiu-se para a capital onde atuou como jornalista e assessor de imprensa. Pouco depois, voltou-se novamente para o rádio. Assumiu a direção do Núcleo Artístico da Rádio Correio da Paraíba, criando o programa Bandeira 2, sucesso nas noites pessoenses. 

Melânia Silveira, atriz campinense, é entusiasta do projeto por uma razão especial: Fernando era seu pai. E foi através de sua influência que ela decidiu seguir carreira no teatro. “Considero que a arte só tem validade se for compartilhada. O livro é uma contribuição indispensável para a memória cultural de minha terrinha”, finaliza a atriz. 

Através do link, acesse o site para baixar o e-book gratuito

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de maio de 2024.

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