Publicação 31/08/2023 10:17, Atualização 19/08/2026 16:53
De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) relativa ao tabagismo e divulgada pelo IBGE em 2020, a Paraíba tem o maior percentual do Nordeste de fumantes diários de cigarro. Além disso, 11,1% dos paraibanos com mais de 18 anos tinham o hábito de fumar tabaco diariamente. Essa porcentagem equivale a mais de 300 mil pessoas. Estudos realizados pelo Ministério da Saúde indicam que o uso de tabaco ocupa o segundo lugar no ranking de drogas mais experimentadas no país e que a iniciação se dá, em média, aos 16 anos de idade.
A entrada no vício durante a adolescência está associada a diversas razões, incluindo, a imitação do comportamento do grupo, amigos e pais tabagistas. Um outro fator que contribui para esse quadro é o fácil acesso, apontado como um dos principais motivos de iniciação e indução ao consumo. Para o médico Rodolfo Bacelar, pneumologista e especialista em sono, o acesso facilitado faz com que as pessoas consumam mais.
“Aumentar o preço do cigarros pode sensibilizar para que realmente as pessoas deixem de fumar pela questão econômica, mas se esse cigarro fica mais barato, o consumo aumenta, e de fato, o Programa Nacional de Controle do Tabagismo inclui a política de preços mínimos para o cigarro entre as estratégias de prevenção”, afirmou o especialista.
Não é o que pensa Manuela Soares, atendente de loja, que começou a fumar aos 15 anos, ao entrar no Ensino Médio. “Não foi o preço do cigarro que me fez começar a fumar, mas a facilidade no acesso. É muito fácil comprar, até pra pedir para um colega é tranquilo”, afirma Manuela, que completa. “Se a marca que eu uso ficar mais cara, eu troco por uma mais em conta”.
Entrada no vício do cigarro pode estar associada a imitação do comportamento de grupo, amigos e pais tabagistas
Larissa Mangueira, que começou a fumar aos 19 anos por curiosidade, concorda que o preço do cigarro não tenha relação com o aumento no número de novos fumantes. “Eu vejo que o que traz mesmo jovem para o cigarro são as questões de socialização. Quando tinha aumento de preço ninguém diminuía o consumo. Eu via as pessoas cortando outras coisas para poder continuar comprando seu cigarro”, disse Larissa.
Apesar da negativa dos fumantes, a correlação entre o preço do cigarro e o aumento no consumo, possui respaldo científico. Um estudo produzido pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), em parceria com a Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos e divulgada na última segunda-feira demonstra que o preço baixo pode sim, estimular o vício. Desde 2017, os cigarros fabricados no Brasil não sofrem reajuste nos preços e um dos efeitos negativos é a tendência de aumento no número de fumantes entre os adolescentes brasileiros.
Desde 2017 que não há aumento significativo no preço dos cigarros fabricados no Brasil e essa situação contraria a recomendação de especialistas em tabagismo. O médico Rodolfo Bacelar concorda. “O aumento dos preços é uma das formas mais eficazes de reduzir o consumo de cigarros”, enfatiza o especialista.
Sem um controle de preços e com os cigarros mais baratos, o percentual de fumantes no Brasil parou de cair, e com um agravante: o número de adolescentes que entram no vício, cresceu. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), realizada em 2015, apontou que 6,6% dos adolescentes com idades entre 13 e 17 anos eram fumantes. Em 2019, esse percentual chegou a 6,8%.
Uma outra pesquisa, realizada pela Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, indicava que o percentual de fumantes no Brasil caiu de 13,4% em 2011, para 10,2% em 2016, justamente o período em que vigorou a política de preços para cigarros. Sem a política, a queda no número de fumantes no Brasil foi de 0,7% entre 2017 e 2021, passando de 9,8% para 9,1%.
“O Brasil tem sido líder mundial no combate à epidemia do tabaco. Apesar disso, os últimos resultados não são animadores. Esse estudo pode apoiar as discussões atuais da reforma tributária no sentido de reforçar a necessidade de o país ter um imposto seletivo para os produtos derivados do tabaco”, destaca o pesquisador do Inca, André Szklo, autor da pesquisa. Como se consome um cigarro muito barato no Brasil, Szklo salienta que isso leva a pessoa a não parar de fumar e que adolescentes e jovens acabem sendo motivados e conduzidos a começar a fumar, estimulados pelo preço muito baixos.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 31 de agosto de 2023.